Basta uma página
Já aconteceu duas vezes, então posso falar sobre isso. Nesses tempos em que recortes da realidade têm potencial para se tornarem a realidade inteira, o que poderíamos esperar da autoficção? Pois que meus dois livros nessa toada, o Três porcos (Caiaponte, 2020) e o Memória do chão (Cia das Letras, 2025), deixaram de ser lidos em sua integridade porque alguém fotografou uma página de cada, mandou pelo Whatsapp para seus amigos, e dali já veio o julgamento.
A primeira vez, e isso faz tempo, foi por conta de um trecho em Três porcos quando o narrador, num acesso de raiva, dirige-se à sua ex-esposa com violência. Mas ela não está presente. É uma violência discursiva – nem por isso menos violenta – de um sujeito que andava perdido entre o que ele chama de abandono e o que ele acaba redescobrindo terem sido ocasiões de abuso sexual em sua infância.
Quando o livro saiu, eu tinha mesmo uma ex-namorada, não uma ex-esposa, e tínhamos alguns amigos em comum. Foram eles que me mostraram o print da página em questão. O que veio depois, por um tempo, foi eu ter me descoberto persona non grata naquele círculo de amigos. Deixei de circular entre aquelas pessoas, claro. Se elas não entendem o que é realidade e o que é ficção, e que qualquer autoficção, seja mais ou menos biográfica, jamais será realidade, não tenho muito o que fazer.
A segunda vez foi há pouco tempo, quando do lançamento de Memória do Chão.
Eu nunca tinha recebido qualquer tipo de ameaça por meus livros, e olha que tentei no Enclave (2018), no Paraízo-Paraguay (2019) e no Deus não dirige o destino dos povos (2023). Mas a confusão se deu com o Memória.
A história se passa dentro de um internato, o protagonista teu seus opositores em diversas esferas, e um deles é o diretor daquele lugar. Desde cedo, a figura do diretor amedronta o protagonista até quase a paralisia. Ele não sonha com vingar-se daquele homem austero que parece ter um prazer imenso em se colocar contra os jovens estudantes daquele lugar. E nada do que ele faz contra o protagonista pareceu comover os leitores. O que comoveu foi a ligação distante do personagem com uma pessoa de verdade, um ex-diretor da escola, e isso bastou para quem um monte de gente choramingasse a injustiça e me visse como um cretino. De novo.
Três porcos é um livro sobre violência sexual contra meninos. Menino. Contra mim. Não é sobre aquela ex-namorada, nunca foi. E o que continua a me provar isso são as demonstrações de homens que também sofreram abuso – somos muitos – e que depois de adultos procuram uma via para tentar entender o que lhes aconteceu. Prova disso é que depois de seis anos o livro continua a ser lido, discutido, pessoas escrevem sobre ele, como o Marcos Vinicius Almeida escreveu na Piauí.
Mas essa é a conclusão de quem escreveu o livro, de quem teve que relê-lo, refazê-lo, publicá-lo etc. E é também a conclusão de quem está há seis anos recebendo devolutivas de pessoas que passaram por violência sexual na infância, homens e mulheres, que continuam tentando lidar com isso de alguma maneira. Agora, pra quem leu somente uma página, o livro não é nada disso. Nunca será.
O mesmo vale para o Memória do Chão. Certa feita, veio um aviso de que eu apanharia uma surra. Claro que me pus a pensar no quanto gente que se mostra sabida é imbecil a ponto de ameaçar um ficcionista pelo que ele disse num livro de ficção. Por causa de uma página, divulgada aos quatro ventos – talvez com um pedido de boicote, vai saber –, recebi algumas mensagens indignadas de pessoas que se colocavam contra o que o diretor da escola havia feito.
Qual diretor? De qual escola?
Leitores um pouco mais inteligentes chegaram a me perguntar se eu falava de fulano ou sicrano, e a minha resposta sempre foi a mesma: que se trata de um romance e que o diretor que vai ali somente existe na relação texto-leitura, autor-leitor, como se queira perceber.
Eu não sou besta, já disse isso aqui?
Um dia, me chegou uma mensagem de uma ex-aluna daquela mesma escola falando de como o diretor, à época em que ela estudou lá, também tinha aquele estranho costume de abraçar as meninas e mantê-las ali, sob seu braço, de maneira constrangedora. E outro dia, a segunda mensagem. De repente eram algumas. E de repente me dei conta que eu poderia fazer uma bagunça com aquelas mensagens, como publicá-las uma a uma para fazer justiça pelas meninas e pela página mal lida do meu livro.
Mas eu não poderia fazer isso sem autorização. O único doente que vive com um pé e meio dentro do que aconteceu há mais de vinte e cinco anos sou eu. No entanto, fico na dúvida: será que elas me autorizariam a divulgação de seus relatos?
Uma fotografia mal tirada de uma página é o que basta para que um tanto de gente tire conclusões precipitadas sobre uma obra literária. Gente que se pinta de inteligente, progressista, iluminada, mas que é tão canalha como seu próprio gesto.
Tanto faz. Vamos adiante.



Lendo tudo que escreveu, eu percebo que o leitor atual parece também, viver uma crise identitária e intelectual; (para ser suave), parece que não consegue mais identificar o que realmente é real, se é assim que chamamos o processo criativo e autobiográfico de cada um, do que é internet, eles fazem a leitura e interpretam igual fazem com textos mal lidos nas redes. Será que é isso mesmo?