Javier, el niño
A primeira vez que pisei em Asunción, capital do Paraguay, senti vergonha. Já tinha lido sobre a guerra, já tinha visto vídeos da Ponte da Amizade e o tráfico constante no rio Paraná. e já tinha, como muita gente, consumido alguma muamba, sobretudo na década de 1990. Mas quando cheguei àquela cidade foi que pude sentir um país. E a vergonha veio também daí: um país ao lado do Brasil que é conhecido apenas por uma fronteira desorganizada, por notícias de crimes e essas realidades que aparecem nos jornais.
O Paraguay teve uma ditadura estranhamente longa – de 1954 a 1989 – protagonizada por Alfredo Stroessner, que só deixou o poder por conta de um autogolpe do Partido Colorado que, em verdade, e apesar das eleições corriqueiras, é quem continua a dominar o país. Antes disso, enfrentou uma guerra com a Bolívia, a Guerra do Chaco, num dos episódios mais tragicômicos da história das guerras, me permito dizer.
Hospedado num hostel barato, pude ver que havia na parede da recepção um mapa do centro antigo, onde estávamos, e uma parte pintada de vermelho com o nome CHACARITA impresso e um DON’T GO THERE [não vá ali] escrito a mão.
Caminhando, meu amigo e eu, chegamos para os lados do Palácio de los López, de museus, do congresso, e de repente chamou atenção aquele tanto de casinhas feitas de madeira fina, chapas de compensado, erguidas na praça diante do senado. Não passamos por ali, mas demos a volta até a costanera, que é como se chama a beira-rio deles.
Foi ali, à margem do rio Paraguay, que parou esse menino, Javier. Veio puxar assunto. Disse que tinha ganhado aquela bicicleta, que morava ali mesmo na Chacarita, perguntou de onde éramos e o que fazíamos. Trocamos algum tempo de prosa antes de eu lhe pedir se podia tirar uma foto. Ele disse que sim, desde que saísse bonito nela. Concordei. Foto tirada, ele aceitou.
O calor que faz no Paraguay em dezembro é uma coisa que eu nunca tinha experimentado vivendo no sul do Brasil. Para retornar, cortamos caminho por dentro da Chacarita – que poderia ser chamada favela, sim, mesmo que isso não diga tudo, mesmo que isso não explique nada. O que eu senti não foi medo, nem vergonha. O que eu queria era que as pessoas soubessem que estávamos caminhando por entre suas casas com o mais profundo respeito.
De repente, entre quatro chapas de compensado, um bar. Ou algo parecido com um. Pedimos duas coca-colas e sentamos num cepo de madeira logo em frente. Estávamos, àquela altura, exatamente no meio do lugar onde os suecos donos do hostel não queriam que outros europeus pusessem os pés. Mas nos éramos brasileiros, eles não entenderiam.
Demorou um ano para meu retorno à capital do Paraguay. E foi somente nessa segunda visita que entendi por que aquelas pessoas haviam construído um bairro de casebres diante de alguns dos prédios mais importantes do país.
Ocorre que antes da construção da costanera, a Chacarita era uma grande baixada que terminava já nas águas do rio Paraguay. Mas veio a ideia daquela obra, da higienização daquele espaço – é preciso ter onde colocar as lanchas e os barcos com dignidade, afinal –, e fizeram um aterro imenso para construir em cima uma via de quatro faixas, mais ciclovia, mas calçadas e trapiches. Essa obra cercou a baixada da Chacarita e inundou parte do bairro de maneira permanente. Outra parte sofria com as cheias sazonais de maneira mais severa do que antes da construção da obra.
Se não tinham casas, muito que bem: ocuparam o Parque de la Victória [sobre a Bolívia, na Guerra do Chaco] diante do Congresso Nacional e passaram a morar ali.
Nesse ano de distância, depois de conhecer Javier, o menino da foto, fui me aproximando da história daquele país. Francia e os dois López, pai e filho, passaram a ocupar lugares dentro da minha cabeça junto do Duque de Caxias e do nefasto Conde D’Eu. Foi por essa época que descobri o que foram as batalhas de Curupaity e de Acosta Ñu. E uma recente, a de Curuguaty, algo como o massacre de Eldorado do Carajás paraguayo.
E fiquei enojado.
Vejam: eu não sou um especialista em Paraguay, eu não sou especialista em nada. Mas eu li um pouco. E escrevi um romance sobre. Talvez isso, embora não me dê autoridade intelectual, me dá alguma proximidade afetiva com o caso recente protagonizado pelo presidente Lula, que alegou que “um belo dia, o Paraguay resolveu invadir o Brasil”, e que essa guerra “deve ter consumido o equivalente a cinco orçamentos do país [Brasil] naquela época”.
A guerra, ao que consta, consumiu cerca de 60% da POPULAÇÃO do Paraguay, sendo 90% dos homens do país. Em Acosta Ñu, mataram milhares de CRIANÇAS, como Javier.
Impossível não lembrar o marxista Ruy Mauro Marini e sua teoria do subimperialismo, segundo a qual uma economia que depende permanentemente do imperialismo central não deixa nunca de exercer traços de dominação econômica [diz ele] e violência discursiva [acrescento eu] sobre os países vizinhos na periferia do capitalismo.
Lula, ao dizer as palavras que disse, de costas para a plateia e de frente para os militares – a quem sempre dá suporte, somente mostra que não é mais o grande personagem latinoamericano que já pôde ser. No fim das contas, caminha para ser apenas mais um presidente do Brasil.


Muito boa a crítica, Marcelo. Custamos a admitir, mas o que reina ali - e sempre foi assim - é a alma de um colonizado, seduzido pelo terno bem cortado (dito por ele mesmo) ou por duas garrafas de uísque (dito pelo César Benjamin o Zuenir Ventura, sobre as eleições de 1989). O mais a gente fábula. Por esperança, por ilusão, ou algo assim.
Cena triste!