Lançamentos
Falta menos de uma semana para o primeiro lançamento de “Memória do chão” aqui em Florianópolis, e eu resolvi falar de alguns lançamentos anteriores, desde o primeiro, lá em 2008. Quando publiquei “Falações” – um péssimo livro de poemas, é verdade –, apareceu um monte de gente, de amigos a familiares, até uma professora querida do curso de Letras e um escritor que eu admirava já um tanto e que depois se tornaria imortal da ABL, cujo texto aparece também na quarta capa do livro que lanço agora.
Lançamento de Enclave em Porto Alegre, 2018.
No lançamento de “Porque sim não é resposta”, apareceu um tanto de gente. O ano era 2015, eu já estava sóbrio há mais de um ano. Foi num bar/espaço cultural. Tem fotos. Minha família apareceu em peso – com exceção de meu pai, se não me engano –, mas vieram outros vários amigos para adquirir aquele opúsculo de vinte e poucas páginas. Nesse dia, perdi minha carteira no ônibus. Minha cara fazer isso.
No ano seguinte, 2016, lancei “O filho da empregada” no SESC de Blumenau. Minha mãe estava presente. De alguma forma, parece que ali ela ficou tão satisfeita – afinal o livro fala em grande parte dela – que nunca mais apareceu. Nem ela, nem meus irmãos. À exceção de Vinicius, que apareceu num segundo lançamento de “Trapaça”, também em 2016, realizado numa livraria num shopping de Blumenau. Quando li um poema com seu nome – e nossa história – tive talvez o meu maior momento como autor nesta vida.
Ah, sim. Houve o primeiro lançamento de “Trapaça”, aquele em que não apareceu ninguém dos de casa. Eu achei que era por bem passar dois dias enfurnado no meu quarto, entupindo meu nariz com pó de má qualidade, a fim de me livrar daquela decepção. Por sorte, eu era funcionário público. Por mais sorte ainda, nunca fui afetado por uma overdose.
Quando lancei “Enclave”, já morava em Florianópolis. Participei de um edital para fazer o lançamento num lugar bacana, a Fundação Badesc, e quando estava para chegar a hora, fui lá ter com o seu então presidente. Ele me disse que eu precisaria de um garçom [eu não tinha dinheiro] e adquirir os vinhos e canapés [eu realmente não tinha dinheiro]. Também me perguntou diversas vezes se eu “chamaria público” ou se “dependeria do público da casa”. Eu disse que tinha convidado umas pessoas, sim.
No dia do lançamento, ali em 2018, eu contava com talvez trinta reais na conta. Fui ao mercado, comprei um garrafão de vinho – aqueles de quatro litros e meio –, um pacote grande de amendoim japonês e duas tripas de copos. Meus convidados apareceram. Gente que eu não conhecia apareceu também. O lançamento foi um sucesso tão bonito que o então presidente da casa passou a me perseguir, dizendo que a noite estava linda, que o livro e aquilo, mais algumas pequenezas. Eu ignorei o sujeito com veemência até o final da festa. O tal público dele nunca apareceu.
Houve também um lançamento memorável na Patuscada, sede da editora Patuá, por onde o livro saiu. As fotos desse dia são poucas para o tanto de encontros que houve. Era a primeira vez que eu via pessoalmente muitos dos amigos que eu havia feito pela internet nos últimos anos. Depois, eles sempre reapareceriam.
“Paraízo-Paraguay” foi lançado em vários lugares, mas eu me lembro mesmo de Porto Alegre e do Rio de Janeiro. Nesse último, a festa foi num bar, talvez na Lapa. Uma mesa inteira de gente saiu sem pagar e eu gastei todo dinheiro que tinha no bolso, coisa de mais de cem reais, arcando com a despesa. Seja como for, era a antevéspera do fim dos lançamentos, pois nem “Três porcos” nem “Amor de bicho” nem “O nome de meu pai” tiveram seus momentos de encontro presencial com os leitores.
Lançamento de Paraízo-Paraguay em Blumenau, 2019.
Quando lancei “Deus não dirige o destino dos povos”, o caminho foi o mesmo: Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, muito encontros em escolas e clubes de leitura. “Família” passou a ser um lugar que nem sempre a bússola alcança, pois não é somente de mim que vem o sentimento de deslocamento – pois existe o deslocamento antes que ele seja sentido; ou seja, “família” passou a ter um sentido largo e que abarca diversas pessoas. Meus amigos, por exemplo. Meu psicólogo, meu ex-psicólogo e minha psiquiatra do CAPS. É essa gente que quero muito poder ver na quinta-feira, quando “Memória do chão” vier ao mundo oficialmente.
Cada vez que lanço um livro, aparece mais gente. Gente querida. Gente com quem eu gostaria poder de sentar e conversar, mas a ocasião não permite. Seja como for – mesmo não sendo, de fato –, um lançamento é uma espécie de premiação em que somente pode haver um ganhador, o autor do livro publicado, diante de uma plateia que não está ali passiva, pelo contrário. É este público, e o autor sabe disso, e eu sei disso, que levará o livro adiante por seus esforços. Ao autor, a mim, parece caber um final de merecido descanso, de resguardo, quando na verdade isso não passa de um autoengano. O que virá depois do lançamento será mais trabalho em busca de um novo livro com o objetivo de [me/vos] proporcionar mais um momento destes, mais um encontro.
Escrever é fim e início, sempre. E se aprendi algo com tantos lançamentos realizados nesses [ponhamos] dez anos, é que um livro lançado é sempre um bumerangue. É preciso saber arremessá-lo, é preciso saber segurá-lo no retorno, é preciso se adiantar e se proteger caso algo dê errado.
E é preciso sobretudo agradecer, sempre.
Vem ao mundo “Memória do chão”, era só isso o que eu queria dizer.
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Parabéns mais uma vez, meu caro. Doido pra reencontrar o livro que ficou lá em JP nessa viagem da Flip.
Bom lançamento