O bandolim
História de vários fracassos.
O ano era 1991 e eu cursava a 1.a série do ensino fundamental numa escola estadual a poucos metros de casa. A invasão do sertanejo como música padrão nacional estava em pleno vapor, e como meu pai não ouvisse outra coisa, era tudo que eu conhecia de música também. Minha mãe tinha uma amiga de muitos anos, a dona Miranda, que por aquela altura tinha arrumado para si um companheiro, cujo nome agora me falta. Ele, também aposentado, passava o tempo livre montando instrumentos musicais que se assemelhavam a violões. Foi assim que, numa das visitas que fizemos ao casal, voltei para casa com um projeto de bandolim.
O instrumento era pequeno, com quatro cordas, e cheirava a verniz. Quando chegou o dia de uma homenagem na escola – esse era o nome que se dava a qualquer evento em que se cantasse o hino nacional e se falassem poemas etc. –, eu não hesitei em subir ao pequeno palco com meu instrumento. O plano era tocar “Nuvem de lágrimas”, de Chitãozinho e Xororó. O único porém é que eu não sabia tocar o instrumento e não houve sequer um adulto, incluindo os da minha família, que me dissessem isso. Cantei e toquei de forma aleatória aquelas quatro cordas vendo a cara de pena das professoras.
Aprendi alguma coisa com isso? Claro que não.
Em 2001, numa tentativa de fazer uma serenata para a minha namoradinha do colégio interno, o fiasco foi tão grande, ou ainda maior. Em vez de olhar as caras das tias, tive de lidar com a minha própria namorada dizendo com os olhos “Agora chega, né”.
Em 2006 ou 2007, numa tentativa de reerguer a “Narciso aprende a nadar”, a banda que tinha com os meninos lá do bairro da infância, perdemos o guitarrista em cima da hora. Foi ele quem desenhou os riffs, os solos, aquelas coisas todas que se faz com uma guitarra na mão. Poderíamos ter desistido de tocar, mas alguém ali disse que eu conseguia, então era só fazer o que eu lembrava. Talvez, apenas talvez, o fato de o antigo guitarrista ter aparecido em cima da hora e eu ter lhe implorado que tocasse tenha me deixado ainda mais nervoso. Ele ficou lá no fundo do espaço assimilando a minha ruína, talvez se deliciando com ela. E eu só queria mesmo que a coisa toda acabasse e eu pudesse sair do palco e ir para casa.
Na próxima tentativa de ter uma banda, a questão das guitarras já não era um problema. Enquanto compositor e cantor que passava boa parte do tempo enlouquecido, ninguém ousava deixar um instrumento ao alcance das minhas mãos. Sorte de todo mundo, sorte minha também.
Mas agora eu era um adulto, ou quase. E já sabia das minhas limitações físicas para tocar um instrumento a contento. Algo sobre ter os dedos grandes demais, ossudos demais, coisa que nenhum médico conseguiu explicar até hoje. Foi quando descobri onde aqueles dedos ficariam bem, e eles ficam bem batendo em teclados.
Aqui, um parêntese. Sabe aquelas cenas desgraçadas que a gente tem com a família e que nunca saem direito da nossa cabeça? Tenho uma aqui para falar. Estávamos os quatro, já sem o pai por perto, quando veio à tona o assunto dos cursos de datilografia. O ano era entre 1995 e 1998. Eu já havia feito meu primeiro curso de informática [Windows 3.1 e MS-DOS], e já havia aprendido a bater as palavras no teclado. Foi quando minha mãe me disse que eu deveria fazer um curso daqueles e eu respondi que não era mais necessário, que já sabia como era. A mulher bufou do alto de seu conhecimento [nenhum] sobre teclados e palavras digitadas e resmungou um qualquer “Ah, sim! vai vendo!”.
Sim, eu já sabia como era, mesmo não tendo um computador em casa. Acontece que na casa que minha mãe limpava havia dois computadores, e eu ficava num deles, às vezes, para fazer meus trabalhos de escola. Aprendi fazendo, como a maioria das coisas que eu sei fazer hoje. Livros, inclusive.
Sempre lembro dessas duas coisas enquanto escrevo um livro, tanto das vezes em que fui traído pela confiança de que sabia como tocar um instrumento como das pessoas de perto me dizendo que eu não seria capaz de digitar direito porque não tinha um curso. A esses, digamos, desafios, somam-se outros, como não ter nunca terminado uma faculdade [nem tampouco ostentar um título de pós-graduação], não dominar um idioma estrangeiro [mesmo que consiga me comunicar em castelhano (e, logo, também em catalão)], não ter um emprego fixo (o que tive, larguei, e não sinto falta), não ter tido filhos, não ter a vida que meu pai teve, não beber mais, fumar demasiado…
Ontem, comecei a mexer no arquivo original de Paraízo-Paraguay, meu primeiro romance publicado em 2019. Foi como me olhar através de um espelho torto. Finalmente, me pareceu verdade aquilo de que não somos mais quem escreveu isso e aquilo. Sei que o Marcelo de hoje ainda gosta do que lê naquele livro e ainda respeita quem o fez, e isso me parece um bom sinal. Também sei que valeu a pena ter gastado tantos anos tentando escrever alguma coisa que prestasse, tentando copiar autores que eu admirava, tentando desvirtuar a cópia até parecer outra coisa.
Se pudesse, voltaria lá em 1991 e deixaria meus livros com aquelas professoras. Diria a elas: “Esse gurizinho ainda vai escrever uns livros, mas eu já adianto pra vocês, tá aqui, ó!”. E nem pensar impedir o menino de subir ao palco e passar aquela vergonha de tocar, sem saber tocar, uma música que ele não compreendia. Afinal, aquele início de refrão que diz “Ah, jeito triste de ter você / Longe dos olhos e dentro do meu coração” será sempre o abraço definitivo naquele menino que não existe mais.
Considere apoiar esta Newsletter! Apoiadoras e apoiadores já têm acesso ao caderno especial “Fica pra crítica genética”, um caderno de anotações sobre os processos que estou percorrendo ao escrever meus romances novos, Os hebófilos e Abrigo de menores. Ali temos um canal de conversa sobre criação — idas e vindas, várzeas e voltas — e sobre as neuroses que somente a tela em branco pode nos oferecer. Espero vocês!


Caramba, por muito pouco tu não foi um “multinstrumentista”.
És tan evident quan em dius_ mas penso que por um longo tempo de nossas vidas_ quando não temos palavras para nomear, retrucar, responder, se dar conta_ é imperativo tocar o bandolim, teimar as cordas e as teclas, até que alguma facilite.