País nenhum
Sobre Fauda, Palestina 36 e Dark Horse
Estou procurando por onde começar a escrever um romance novo e me botei a pesquisar entre livros e o audiovisual. Acabei, por isso, conhecendo Fauda, uma série israelense com quarenta e oito episódios distribuídos em quatro temporadas. Não poderia ter começado melhor essa minha pesquisa. Fauda é um longo canto de louvor às Forças de Defesa de Israel através do olhar elogioso que é posto sobre a Unidade 8200, a partir da qual vemos o que acontece nos territórios israelense e palestino. Essa tal unidade parece muito com o BOPE de Tropa de Elite (Padilha, 2007): tendo como única regra a vitória, não faltam cenas de tortura física e psicológica brutais ao longo da primeira temporada, sobretudo. Tudo para acabar com o inimigo.
Quem já assistiu a Choque de Cultura sabe que o capitão Nascimento e sua trupe não sabiam quem era o inimigo no primeiro filme da franquia brasileira. Por isso, no segundo filme da série, cujo subtítulo é “o inimigo agora é outro”, nos fica claro que eles não sabiam quem estavam procurando no primeiro. Fauda vai quase que igualmente por aí: ao longo das quatro temporadas eles procuram gente do Hamas, do Estado Islâmico (ou ISIS, ou Daesh), do Hezbollah… e não sabem realmente quem estão procurando. A lógica de que o outro é o inimigo é muito clara. E o outro, naquele contexto regional muito específico, pode querer dizer “todos” como pode querer dizer “qualquer um”. Simples.
Como o que temos é o ponto de vista de israelenses, acabamos por nos deparar com vidas mui ocidentais, muito parecidas com as nossas: uma classe média sustentada por um governo poderoso em que se toma vinho e se fuma maconha nos momentos de folga. Claro que há uma resposta a isso: em algum momento lá pela quarta temporada descobrimos que quem usa drogas pesadas são os árabes. Os raros momentos em que acompanhamos o cotidiano da vida das pessoas do outro lado, elas estão ou tentando destruir Israel, ou rezando, pois muçulmanos. Há muito poucas menções à religião judaica ao longo da série. Os seculares ganharam, parece. Ou os ortodoxos não aprovaram sua aparição nos frames sanguinolentos de Fauda.
Cena de Fauda
O que não pode faltar são tiroteios, explosões e vingança. Aqui, um ponto muito interessante: Israel não tem uma Constituição – e dizem haver razões históricas para isso. Assim sendo, o poder de punir recai sobre os órgãos poderosos do Executivo: é o Ministério da Defesa quem define o que vai acontecer com este ou aquele árabe. Uma das medidas de retaliação ali mostradas revela que mesmo o terrorista já estando preso, sua família paga com a perda da casa, que é explodida pelo exército israelense num espetáculo macabro de apreciação do poder que os palestinos não têm.
Um ponto muito importante é o bilinguismo dos personagens principais. Por a Unidade 8200 se tratar de um operativo de elite que realiza missões secretas de incursão em território inimigo, seus integrantes dominam o idioma do inimigo. É assim que conseguem se infiltrar e até criar laços com os palestinos. O mesmo vale para as características físicas dos personagens, tanto de um lado como do outro: não dá pra dizer, de antemão, quem é árabe e quem é judeu apenas pelas feições, já que eles podem ser muito parecidos.
Mas falando de bilinguismo, vale ressaltar que a atriz Laëtitia Eïdo, francesa que representa uma médica palestina, não fala nem o árabe levantino nem o hebraico. Suas falas na série são uma mistura de composições fonéticas com expressões sugeridas: dúvida, dor, alegria etc. Gostaria muito de saber como se deu a escolha do elenco.
Nessas minhas pesquisas iniciais, me deparei com um conjunto de datas que parece imprescindível para compreender o conflito naquele tabuleiro confuso (ave, Xadrez Verbal) que é a Palestina. Pois que durante o Mandato Britânico naquela região (1922-1948), houve a importantíssima Revolta Árabe da Palestina (1936-1939), o primeiro levante organizado contra a ocupação britânica e contra o ingresso massivo de judeus (ainda não israelenses) na região. Dirigido pela palestina Annemarie Jacir, o filme Palestina 36 mostra a partir de dentro – e em camadas – o que aconteceu na região.
Cartaz de Palestina 36
E confunde as coisas. Se nós, nascidos na década de 1980, nos acostumamos a ver os inimigos dos EUA na Segunda Guerra como inumanos que somente grunhem palavras de ordem – quantas são as produções em que o alemão é dublado, legendado, tornado inteligível? –, também fomos acostumados a entender o povo árabe como um feroz adorador de Deus. Gente que repete o Allahu Akbar antes de se explodir no meio de civis inocentes.
Se soa a relativização ou não, tanto faz, mas me parece que alemães na guerra são apenas uma composição, o inimigo feito imagem: não entendemos o que dizem, falam como se ordenassem sempre a morte do outro, beiram o irracional, não chegam a ser gente. Mas se os nazistas não eram gente, como organizaram a morte de milhões de pessoas? Como avançaram sobre a França e a Rússia? É possível que símios tivessem essa capacidade de cálculos de perdas e danos?
Não sei se por isso, mas chuto uma possibilidade, Annemarie Jacir opta por contar a história de 1936 não a partir de uma vila de muçulmanos, mas de uma vila de cristãos. Se era para confundir as coisas, trazer o espectador para perto, dialogar com os “iguais” do ocidente, pois bem, temos aqui um ponto: eles também são árabes (diferente da atriz Laëtitia Eïdo), falam o árabe, reconhecem aquela terra como sua, mas têm cordões com crucifixos no pescoço.
Uma tentativa (vã?, mais uma?) de trazer luz à questão da Palestina e suas complexidades. Veja-se que depois dos atentados de 7 de outubro de 2023 em Israel, a defesa ocidental, mesmo a de esquerda, passou a ser pelas crianças, como se os adultos, todo e qualquer adulto, fosse um suspeito em potencial. Israel não começou a matar crianças e adultos inocentes em 2023. Tampouco em 1948, durante a fundação daquele Estado. Israel mata árabes, muçulmanos ou cristãos, há pelo menos cem anos.
E há cem anos se repete o discurso de que os inimigos querem ver o fim daquele Estado. Mas quem é o inimigo? Ou isso, à maneira dos filmes de José Padilha, também não se sabe ao certo?
Em tempo: Fauda ganhou diversos prêmio e nomeações. A saber: vencedor de Melhor Série, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor diretor, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor roteiro, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor ator, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor cinematografia, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor edição, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor design de cenários, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor figurino, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor som, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhor elenco, Israeli Academy TV Awards; vencedor de melhores efeitos especiais Israeli Academy TV Awards.
Em tempo, ainda: seleções oficiais da série: Israel Film Festival 2018 | Los Angeles, USA; Australia Jewish Film Festival | Australia; Toronto Jewish Film Festival | Canada; Jewish Film Festival | London, UK; Hong Kong Jewish Film Festival | Hong Kong, China; Copenhagen Jewish Film Festival | Denmark; Israel Film Center Film Festival | NY, USA; Chicago Festival of Israeli Cinema | USA.
Agora, uma dúvida: ainda não entendi, juro que não, por que o novíssimo filme, pérola inédita do cinema nacional brasileiro, o Cavalo Manco, é falado em inglês. Talvez o pessoal de Fauda pudesse dar dicas de como fizeram a atriz francesa falar o árabe. Por outro lado, e levando em conta que muita gente não consegue ler legenda, eu me pergunto: será que previram a dublagem de Dark Horse pelas personagens reais? Adianto que não aceitarei nada menos do que um presidente com problemas gravíssimos de cognição e dicção.



Hahaha cavalo manco dublado vai ser foda! Já quero assistir a Palestina 36.