Um sonho bonito
Que esse país vai mal, todos sabemos. E não, não é de hoje. O neoliberalismo venceu tão bem que qualquer fala progressista da esquerda institucional soa como música aos ouvidos de uma classe média intelectualizada e também ela progressista. Mas esse país afunda a olhos vistos, seja porque o agro, seja porque as bigtechs, seja porque entendemos que assassinar mais cem pessoas a olhos vistos mereça uma condenação verbal, mas nunca uma condenação jurídica aos envolvidos.
Elis Regina canta “Querelas do Brasil”, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós
Mas a gente não pode deixar de sonhar, não é? Com uma energia limpa que destrata a vida de milhares de pessoas – como os cata-ventos – ou quando realiza um evento mundial (que foi um fiasco) ao mesmo tempo que negocia a abertura de campos de petróleo na foz do maior rio do mundo. Sonhar é possível e necessário, então vou contar o meu sonho.
A gênese dele está num documentário assistido há muitos anos em que falam membros do partido trabalhista israelense, a esquerda lá deles, e em que há um depoente que conta como todos os anos milhares de crianças vão até a Polônia conhecer o Museu do Holocausto. O homem, que não me recordo se era um professor ou um político, talvez os dois, contava que as crianças viajavam via terrestre e aérea em clima de férias, cantando canções escolares, mas isso somente até chegar ao aeroporto polonês. Lá, eram intimidadas por professoras e professores, guias e quem mais a não falarem mais em hebraico, não abrirem a boca, pois a população daquele país era antissemita e seus ônibus poderiam ser apedrejados, poderiam ser queimados, poderiam todos morrer etc.
Então as crianças conheciam o Museu e, ao fim, suponho – pois nunca estive lá e também não sou judeu – deixavam o lugar atônitas. Atônitas e com medo de que a coisa toda acontecesse novamente, e acontecesse a elas.
Hoje, fico pensando o quanto de educação há nessas jornadas. Educação sobre seu povo, sua história, sobre o que fizeram aos judeus no século XX e sobre como enxergar todos os potenciais inimigos – leia-se imediatamente palestinos aqui: como uma sub-raça, uma sub-gente que se move, chora e grita antes de ser fuzilada. Os nazistas fizeram isso com os alemães (com grande parte da Europa, na verdade) e tivemos o Holocausto. Os judeus fazem isso com suas crianças e temos o Genocídio Palestino.
Mas meu sonho é bonito.
Valendo-me dessa imagem de crianças indo visitar a sua história em outro lugar, pensei: e se no Brasil as crianças tivessem oportunidade de conhecer o seu país? Várias turmas indo para diversos lugares, todos os anos, sem cessar. A gurizada do sul conheceria o nordeste que tanto teme, o pessoal do nordeste conheceria o Pantanal, o pessoal do Norte conheceria Minas Gerais, e assim por diante. Todos os anos, crianças e adolescentes viajariam com seus preconceitos para conhecer e tentar compreender o Brasil, esse país imenso que nunca foi realmente um país.
Sotaques, gastronomia, paisagens. Gente! Aulas de ciências, matemática, humanidades. Como o avião voa?, e lá estaria o professor explicando às/aos estudantes, porque estariam dentro de um. A caatinga não seria mais um mistério, o rio Amazonas – só de lembrar me arrepio – não seria apenas um título no Guiness, um ponto no mapa. O Pelourinho, a praia de Piatã, uma Salvador vivida na pele, no contraste das peles.
Algumas turmas iriam primeiro ao Oiapoque e depois ao Chuí para analisar as variantes linguísticas de um mesmo idioma falado a milhares de quilômetros de distância. As turmas iriam para todos os lados, durante uma semana ao ano, para investigar esse país que a gente, quase como um todo, aprendeu a querer ao mesmo tempo que desconhece quase completamente.
Ao fim dessa jornada de anos, talvez as crianças – já crescidas – de Santa Catarina tivessem uma opinião diversa da dos políticos de direita sobre o Maranhão. E as crianças baianas talvez não tivessem medo – como alguns adultos que eu conheço têm – de vir ao sul do país.
É apenas um sonho, mas é – cá pra mim – um sonho bonito. E se essa época do ano, na iminência de um ano novo, não servir para isso, para ter sonhos bonitos sobre o futuro, então não deve servir para mais muita coisa.
Considere apoiar esta Newsletter! Aqui às vezes ocorre de aparecer um caderno de anotações sobre os processos que estou percorrendo ao escrever meus romances novos. Um canal de conversa sobre criação — idas e vindas, várzeas e voltas — e sobre as neuroses que somente a tela em branco pode nos oferecer. Te espero!


bons sonhos!!
Feliz ano novo, meu caro!