Vocês erraram!
Li uma vez, há muito tempo, que a primeira tentativa de suicídio de Renato Russo foi quando da gravação do primeiro disco da Legião Urbana. A coisa toda se deu por conta da produção do disco: a gravadora queria que “Geração Coca-Cola” fosse uma música de trabalho, e por isso ela tinha que ser acelerada, quase festiva, algo na moda naqueles meados dos anos 1980. Mas a música não tinha consigo aquele clima festivo que viria a nos colocar a todos na eterna ressaca política em que estamos afundados. Não: ela era intimista, era para conversar com as pessoas sem precisar de um refrão feito com chiclete.
Renato perdeu a luta, e a versão da produtora foi para o disco, conquistou as rádios e as cabeças das pessoas. O resto é história. Mas hoje, enquanto passava aspirador pela casa, enquanto ouvia pela milésima vez o ao vivo “Como é que diz eu te amo”, lançado em 2001 mas gravado em 1994, me deparei com surpresa com a mesma música, mas com uma introdução feita pelo vocalista e compositor da banda referindo-se ao início dos anos 1980, antes da gravação do disco:
Quem deu força pra gente foram os nossos grandes amigos Os Paralamas do Sucesso, que são os nossos padrinhos. E nunca se esqueçam disso. Eles entregaram uma fita [à gravadora] com essa música, o pessoal gostou, e agora a gente vai tocar essa música como eles ouviram na época.
É uma fala simples, sem ressentimento aparente: ‘a gente entregou o som assim, ele saiu assado no disco, e agora vocês vão saber como era a canção que havíamos pensado’. Claro que encasquetei com isso. Fiquei pensando em como a indústria da cultura molda discos e livros de acordo com suas necessidades de mercado. Imagino uma Literatura Fashion Week em que, em vez de modelos vestindo trajes espalhafatosos, desfilam pela passarela temas ambulantes: autoficção do autor que escreve um livro sobre não saber escrever o livro que está escrevendo, a poesia de não sei qual ator ou atriz global que descobriu como alinhar palavras e criar versos com elas, as emergências todas desse país que são redescobertas não por conta de sua urgência, mas ao sabor do que está em vias de vender mais: se os abusos sexuais contra mulheres e crianças, se o racismo, se as discriminações todas, se isso e se aquilo. Um tema por ano. Talvez dois. Talvez todos. Nós não participamos das decisões.
Eu insisto na minha antioficina que precisamos dar muita atenção ao que vem de dentro: nossas neuroses e as obsessões delas derivadas. Que precisamos saber o que fazer enquanto autores, mas também precisamos dar conta de ouvir o que o texto nos diz, o que ele nos pede. Hoje me dei conta de que talvez eu esteja errando, e muito, ao vincular o surgimento do texto com nossas questões internas – que não excluem as questões do mundo externo, lógico, mas o texto quem escreve sou eu a partir de como o que me é externo mexe comigo, certo? Pois bem. E se isso tudo não passar de um engano baseado num idealismo tosco de alguém que acha que aquilo que produz faz algum sentido?
E se eu estiver enganando meus alunos ao omitir que talvez o que nós precisemos realmente sejam ingressos para a Literatura Fashion Week? Se não for assim, como é que um dia estaremos na moda?
Bom, eu acho que aquelas pessoas confiam em mim. Não de cara, lógico, porque é um processo. Então que não poderia, numa relação de confiança, dizer a elas algo em que nem eu acredito. E isso me lembra uma outra coisa, uma outra entrevista de Renato Russo sobre a música e o sucesso no Brasil. Dizia ele que enquanto nos Estados Unidos se lutava por espaço, no Brasil a questão era muito mais dura, pois se lutava pelo espaço: o palcos de Chacrinha, Faustão, Gugu etc. Perverso, no mínimo.
No Brasil, em se tratando de literatura, mata-se e morre-se pelo espaço. Pensem aí.
Interessantíssimo como canções antigas da Legião Urbana vieram à tona nos últimos álbuns da banda: Tempestade e Uma outra estação. Às vezes, pode-se ouvir um Renato muito próximo da morte. Noutras, um rapaz cheio de vida pelas esquinas invisíveis de uma Brasília que não existe mais. Certa vez, indo do Rio para Paraty, tocou Giz no carro. Disse que adorava aquela música, o motorista disse que também. E acrescentou que lembrava a sua infância. Ele também rabiscava o sol na calçada para pedir que a chuva parasse de cair. É muito melhor brincar sem chuva.
Mas aqui na minha cabeça existe uma nuvem persistente que me pergunta o quanto de atenção eu preciso ter aos temas desfilantes antes de começar a escrever meu próximo livro. Digo a mim mesmo que atenção nenhuma. Nenhuma! Graças a Deus!
A versão original de “Geração Coca-Cola”, dez anos depois:
A versão que acabou no disco em 1984:
PS: o título desse texto está no mesmo “Como é que se diz eu te amo - CD 2”, faixa “Índios”, quando Renato esquece a letra da música, pede ajuda da plateia e percebe que eles também erraram.
